Resumo
As alterações ósseas pós-exodontia ganharam atenção especial na última década, principalmente pela sua influência direta no plano de tratamento com implantes. Estudos experimentais com modelos animais e em seres humanos demonstraram que, quando os dentes são perdidos, os processos alveolares remanescentes sofrem mudanças estruturais significativas, passando por um processo fisiológico inevitável que resulta em redução variável de sua dimensão. De um modo geral, nos três primeiros meses pós-exodontia ocorre a maior quantidade de reabsorção, ainda que um ano depois mudanças dimensionais continuem sendo observadas, resultando em uma redução de aproximadamente 50% da dimensão vestibulolingual, principalmente devido à perda da parede óssea vestibular. A técnica utilizada no momento da extração pode influenciar na qualidade e na quantidade tecidual ao final da cicatrização (HÄMMERLE et al., 2012; ARAÚJO et al., 2015; IOCCA et al., 2017).
A preservação das paredes ósseas de um alvéolo e dos tecidos periosteais, após a exodontia, podem fornecer fontes de nutrição importantes para uma neoformação óssea alveolar bem-sucedida. Entretanto, esta situação não é sempre encontrada clinicamente, pois geralmente as perdas dentárias são resultantes de fratura de raiz, infecção pós-tratamento endodôntico e periodontite, o que na maioria dos casos, causam a perda de paredes ósseas circundantes. As células da camada interna do periósteo são responsáveis pela remodelação óssea, sendo que sempre que o periósteo for descolado, as células são lesionadas e necessitam regenerar-se antes do processo de remodelação se iniciar. Por este motivo, na última década, ocorreu um aumento na busca por técnicas de exodontias minimamente traumáticas, que visam a ausência da necessidade do descolamento do periósteo, por meio da utilização de instrumentos que realizem o rompimento das fibras do ligamento periodontal e removam fragmentos radiculares por tracionamento (MISCH, 2008; LEE et al., 2015; MASAKI et al., 2015).
Oliveira Filho et al. (2015) avaliaram que, além das técnicas de exodontia minimamente traumáticas, o princípio da técnica de regeneração tecidual guiada vem sendo utilizado para o intuito da preservação alveolar pós-exodontia. Neste escopo, o polipropileno foi lançado no mercado como membrana não reabsorvível, podendo permanecer exposta ao meio bucal, apresentando neutralidade química e biocompatibilidade. Assim, esse material tem sido utilizado frequentemente após exodontias para a manutenção do rebordo alveolar em sítios que irão receber implantes, sem necessariamente ser associado à enxertia óssea. Um estudo atual observou que a barreira de polipropileno é viável para uso em preservação ou regeneração óssea alveolar e pode ser facilmente removido alguns dias depois da cirurgia (BARBOZA et al., 2014; DE LUCCA; DA COSTA MARQUES; WEINFELD, 2018; TROBOS et al., 2018).
A qualidade do osso alveolar é fundamental para o sucesso do tratamento com implantes osseointegráveis (JAFFIN; BERMAN, 1991; DEGIDI; NARDI; PIATTELLI, 2011). A estabilidade primária do implante é considerada critério essencial para o sucesso deste em longo prazo. No entanto, em osso de baixa densidade, a qualidade do tecido influencia negativamente na estabilidade inicial (LEKHOLM; ZARB, 1985; TRUHLAR et al., 1997).
A estabilidade primária é avaliada no momento da instalação do implante e é necessária para permitir a formação de um osso denso ao redor do implante, após o trauma causado pela cirurgia (SAKKA; BAROUDI; NASSANI, 2012). A ausência dessa estabilidade pode gerar a formação de um calo fibroso, pois a micromovimentação ativa a atividade osteoclástica na interface osso-implante e, como consequência, pode levar a falha no processo de osseointegração. Após a neoformação óssea ao redor do implante, os implantes atingem a estabilidade secundária, que reflete o valor do reforço da conexão mecânica entre implantes e ossos induzidos pelo processo de osseointegração (TRISI et al., 2016).
Com o intuito de avaliar a estabilidade primária dos implantes, a análise de frequência de ressonância mostrou-se uma técnica não invasiva, que torna viável essa avaliação tanto no momento da colocação deles, como durante e após o período de osseointegração (MEREDITH; ALLEYNE; CAWLEY, 1996). Um transdutor (Smartpeg) é conectado ao implante por meio de uma conexão de parafuso ou ainda conectado ao pilar protético. O Smartpeg é estimulado por impulsos magnéticos e a frequência de ressonância é expressa eletromagneticamente como um quociente de estabilidade do implante (ISQ) com unidades que variam de 1 a 100. O sistema de análise de frequência de ressonância (Osstell AB, Göteborg, Suécia) tem sido usado com frequência para avaliar a estabilidade do implante (MEREDITH; ALLEYNE; CAWLEY, 1996; MOLLY, 2006; ROWAN et al., 2015).
De acordo com os estudos de HEINEMANN et al. (2015), a estabilidade primária pode ser influenciada por alguns fatores, divididos em intrínsecos e extrínsecos. Os fatores intrínsecos são aqueles que dependem exclusivamente da condição do paciente, como qualidade e metabolismo ósseo, estado sistêmico do paciente, hábitos e idade. Quanto aos fatores extrínsecos, conhecidos também como fatores relacionados ao tratamento em si, são aqueles que dependem da técnica cirúrgica, das características geométricas do implante (macro e microgeometria) e dos protocolos de carregamento.
Neste contexto, além dos princípios de regeneração óssea guiada, vários biomateriais substitutos ósseos foram introduzidos nas últimas décadas para se minimizar a reabsorção óssea no rebordo alveolar (HOROWITZ et al., 2014; MASAKI et al., 2015). Materiais como enxertos autógenos, alógenos, xenógenos e aloplásticos, foram amplamente utilizados. Contudo, alguns estudos têm demonstrado que a qualidade do osso regenerado a partir de substitutos ósseos pode ser baixa, podendo interferir na estabilidade inicial dos implantes e consequentemente na osseointegração (Horowitz et al., 2012; Chan et al., 2013; Horowitz et al., 2014). Além dessas considerações, é lícito ponderar que não se deve haver exsudato na área a ser operada, podendo ser indispensáveis intervenções clínicas prévias ao procedimento, tais como raspagens, profilaxias e até mesmo o uso de antibióticos (MISCH, 2008; OGHLI; STEVELING, 2010; LEE et al., 2015).